domingo, 3 de outubro de 2010

04:04

Na ausência do conforto, do apego, resta a dor e a vontade de atenção. Tudo ficou mais doloroso, até o vento leve da noite fria fora do quarto e os cobertores na cama menos aconchegantes que o normal. Criou-se uma confusão entre o ficar ou ir, entre adormecer facilmente ou agonizar até morrer na noite, por ela inteira. Ninguém viu e eu pedi, pedi parar que me levassem dali, onde alguém me visse, me analisasse e, fora feito. O ar não era mais o mesmo, criei o sufocamento ou ele deveras existiu? Realmente não sei. Mas o ar estava pesado, perdido dentro da caixa pulmonar preta por fumar, queria fumar, e aliviar esse vácuo todo. São uma e quarenta e cinco da manhã, e eu queria fumar, fumar, fumar! Cheguei perto de um estrangulamento, mas reagi bem. O socorro me veio, atrasado, mas veio, pensei em desistir e voltar ao aconchego inútil do cobertor sem braços.
Continuei ali sem reação alguma, tentei chorar, chorei, parei, evitei, continuei... Fui dar uma volta, uma volta intencional e mentirosa, não tão mentirosa quanto à noite. Nada passava, ninguém passava, eu estava sombria, fria e doente assim como as ruas que passavam por minha janela empoeirada. Observei pessoas a distância, eu estava distante, de mim, só a inconsciência. Fui diagnosticada por uma caixa de células mortas, há essa hora eu também estava. Comprimidos resolvem, disse ele. Mas para essa dor não são necessários comprimidos, com todo esse pandemônio, falei. Era o que me restava as quinze para três da manhã, tomar mais comprimidos sem saber se essa invasiva perseguição do mal da dor passaria, e sabia que ia passar. Voltei a sonhar, e tenho certeza de que foi acordada, por que a dor foi maior, mais intensa e consciente e profunda e dolorosa demais pr’eu suportar. O meu reduto me esperava, me deleito nele tentando fugir disso tudo que me elevei, eu durmo no momento em que o relógio manca a mesma hora, quatro e quatro.



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